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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Eu tenho...


Eu tenho trinta e cinco vernizes, mas eu quero mais, eu tenho dezanove pares de calças e calções, mas eu quero mais, eu tenho seis pares de leggins mas eu quero mais, eu tenho quatro casacos de inverno, mas eu quero mais, eu tenho quatro computadores em casa, mas eu quero mais, eu tenho um guarda-roupa a explodir, mas nunca é suficiente, eu tenho uma cama enorme, mas não é suficientemente espaçosa, tenho uma secretária, mas não me dá espaço suficiente para trabalhar, então eu tenho uma garagem enorme, mas não cabem os meus materiais, eu tenho um ipod, mas não tem memória suficiente, eu tenho um par de galochas, mas são demasiado vulgares, eu tenho sete pares de botas, mas umas são demasiado frias, outras demasiado duras, outras demasiado quentes, eu tenho quatro malas diferentes, mas sabe sempre bem mais uma, eu tenho uma infinidade de brincos, mas mais uns não fazem mal, eu tenho pulseiras, relogios, fios e colares, mas nunca chegam, eu tenho oito vestidos, mas já foram usados demais, eu tenho três televisões em casa, mas não são plasmas (…).

Tenho donuts, bolos, bolachas para quando tenho desejos, e café da máquina para quando tenho sono, mas se não tiver café da maquina tenho café de pacote, ou se me apetecer um galão tenho café com cereais, mas se não houver nada disto tenho sempre três cafés a porta de casa para ir beber. Eu tenho comida na mesa sempre que quero, e uma mãe que a faz por mim, mas se não estiver a mãe está a avó (…).

Mas isto sou eu, a pobre coitada da classe média. Nada humilde, muito gananciosa. Eu e mais de metade da humanidade..  Mas e se fossemos pobres, e se vivessemos em África?

Seria algo tipo:

- Vivo num campo de refugiados, é porreiro, alimentam-me, durmo numa tenda de tecido, até se está bem, tenho um irmão que perdeu a perna, pelo menos sobreviveu, está aqui comigo, tenho uma mãe que está doente, mas viveu tempo suficiente para ciudar de mim, tenho sede.. mas não há água, tenho fome, mas aqui como mais do que antigamente, estou sempre a mudar de sitio, com o campo, não faz mal, pode ser que seja melhor.

 

                Será que sou assim tão pobre coitada? Bem se o sou, o que são estes meninos? Que sofrem todos os dias mas ainda assim arranjam maneira de no fim do dia rasgar um sorriso e desejar boa noite? Onde arranjam eles a força ao verem familias inteiras partirem, para continuarem o dia que eu não arranjo quando não sei o que vestir, onde arranjam eles força para não comerem durante dias que eu não arranjo quando, apesar da dispensa cheia não sei o que comer?


Joana Cancelinha Pereira